Conhecimento ainda é poder?

img3.jpg

Todos já ouvimos a máxima “Conhecimento é Poder”. Há milhares de anos, o sábio Hebreu, no livro de Provérbios, declarou: “O homem sábio é forte, e o homem de conhecimento consolida a força.” Provérbios 24:5

Ao longo da história, o conhecimento foi usado como um instrumento de dominância, criando abismos sociais. Muitas vezes, quem detinha o conhecimento infundia terror e superstição, com intuito de controlar e coagir.

Sábios, escribas, sacerdotes, padres, imperadores procuraram erguer barreiras entre as pessoas e o conhecimento, para que pudessem manter o controle sobre as massas ignorantes.

A partir das revoluções promovidas pelo protestantismo, pelo iluminismo, e todas as demais ondas que se sucederam, assistimos à gradual socialização do conhecimento, que culminou com a corrosão sistêmica do poder como o conhecíamos e transformou as relações humanas em todas as suas esferas: política, familiar, espiritual, mercantil e social.

Aprendemos a usar o conhecimento adquirido para resolver problemas complexos da nossa civilização, nas mais diversas áreas: nutrição, saúde, saneamento, economia, energia, biotecnologia, produção, agricultura, entre outros.

Como efeito natural deste processo de socialização do conhecimento, o poder migrou de mãos, se tornou mais disperso e disforme. O exercício da liderança, em qualquer esfera - seja política, comunitária ou empresarial - tornou-se um desafio. Conhecimento não é mais garantia de poder.

Moisés Naim defende em seu livro “O Fim do Poder” que, após a segunda guerra mundial, o processo de deterioração do poder tornou-se acelerado, acompanhando a revolução digital e o surgimento da internet. Mesmo no campo militar, vemos grandes exércitos com enormes dificuldades para combater a guerra de guerrilhas que se trava contra inimigos indefinidos - terrorismo religioso, extremismo ideológico, etc.

O autor afirma que “O poder está se dispersando cada vez mais e os grandes atores tradicionais (governos, exércitos, empresas, sindicatos) estão cada vez mais sendo confrontados com novos e surpreendentes rivais - alguns muito menores em tamanho e recursos. Além disso, aqueles que controlam o poder deparam-se cada vez com mais restrições ao que podem fazer com ele”.

A partir deste contexto, gostaria de propor uma reflexão, trazendo o assunto ao campo da gestão. Como é possível liderar uma organização na atualidade? Qual é o novo fundamento do poder? É inegável que o poder é um componente imprescindível da gestão. Sem a legitimidade e a autoridade que o poder confere ao gestor, o trabalho de liderança torna-se ineficaz.

Para responder a esta pergunta, é importante definir qual é o papel de um gestor na organização moderna, e com base nesta compreensão, poderemos definir que tipo de poder é necessário para garantir a eficácia do gestor.

Eric Schmidt, Chairman do Google, afirma no livro “Como o Google Funciona” que “o Gestor é como um roteador muito eficiente”. Em outras palavras, o papel do gestor é garantir que o fluxo de informação aconteça da forma correta, no tempo certo, e para as pessoas certas. O gestor é responsável por orquestrar os resultados da organização por meio de sua capacidade de decisão e influência, construindo o consenso, e atingindo metas.

Desta forma, pode-se afirmar que a legitimidade do gestor, o seu verdadeiro poder, está na relação de confiança que este mantém com seus liderados. A relação de confiança é fruto do convívio, de evidências e fatos que mostrem compromisso real com o grupo. Algo que, no longo prazo, não pode ser forjado ou imposto. Deve ser construído e preservado.

Quando a liderança é exercida com base na hierarquia, comando e controle, o poder consiste na alçada de decisão de uma pessoa, que tem o privilégio de enxergar o todo. O seu ponto de vista precisa ser único, e somente seu, para que possa manter o poder.

Hoje, a liderança está se firmando nos relacionamentos e no alinhamento de propósitos. O mundo se tornou mais horizontal, os lideres serão revelados pela sua capacidade de influenciar e conectar pessoas, pela sua habilidade para construir o consenso de forma eficaz, atingindo resultados.

ASSUNTOS: poder / liderança

por Michael Cardoso
Co-fundador e diretor de operações da JExperts

 
2
Kudos
 
2
Kudos

Now read this

Uma abordagem adaptativa para gestão de riscos

O gerenciamento de riscos é frequentemente tratado como um problema de conformidade que pode ser resolvido através da elaboração de muitas regras e da garantia de que todos os funcionários as sigam. Muitas dessas regras reduzem alguns... Continue →